A minha realidade no SNS



Ultimamente quando vou para qualquer rede social, quer o Instagram ou Facebook, encontro sempre um post ou outro a falar sobre o SNS. Neste caso em particular - o estado degradado do SNS.

Partilho muito da frustração dos meus colegas. Mas nunca senti que podia partilhar as minhas experiências ou frustrações.

"Quem sou eu, uma interna do ano comum / interna de formação geral (IAC/IFG), a queixar-se das condições de trabalho quando acabei de entrar neste mundo?"

Mas a verdade é que como é que eu, uma IAC/IFG, que acabou de começar a sua vida profissional, já se sente tão desapoiada? Tão frustrada com o sistema? Quando acabei de começar... Essa é a parte mais assustadora.

Para quem não está neste mundo de saúde pode estar a pensar - "que exagero". Mas acredita que não é.
É apenas uma descrição do mundo em que vivemos neste momento.

Acho que a melhor maneira de descrever é com exemplos, e infelizmente já tenho alguns.

Antes disso, quero esclarecer uma coisa. Apesar de tudo, tive bastante apoio de todos os internos com quem contactei e muitos especialistas. Mesmo assim, estas situações continuam a acontecer devido à má organização, gestão e condições de trabalho em que nos encontramos neste momento - por todo o país.

O dia de urgência em medicina interna começa como qualquer outro - com a passagem de turno. Em medicina interna a passagem de turno costuma demorar pelo menos 45 minutos a 1 hora devido à quantidade de doentes que se encontram nas urgências. Falamos de cada doente, um a um, a descrever a sua história de doença atual, antecedentes relevantes, medicação, situação social, etc. Muitas das vezes há mais de 50 doentes para passar, no entanto é crucial passar a informação clínica para a próxima equipa que vai entrar. 

Num dia em particular, a equipa a entrar foi uma recém especialista, uma interna de medicina interna do 5º ano e duas internas de formação geral - sendo eu uma delas.

Portanto: mais de 50 doentes para reavaliar, mais todos aqueles que iriam entrar pelo próprio pé, doentes transferidos de outros hospitais, doentes que vêm de ambulância e doentes que poderiam entrar pela sala de emergência.

Para terem uma ideia, um turno "normal" tem 3-4 especialistas, 1-2 internos de formação específica (internos de medicina interna) e 1-2 internos de formação geral.

Para quem tem alguma experiência na área de saúde já percebeu a situação...

Por outras palavras, estávamos lixadas.

Ainda houve uma tentativa de fechar a urgência. Isto quer dizer que as ambulâncias que normalmente iriam ser encaminhadas para o nosso hospital, seriam re-encaminhadas para outro hospital que tivesse mais capacidade para atender os doentes. Mas todos os doentes que iriam chegar pelo seu próprio pé ainda poderiam entrar.

No entanto, a administração e direção da urgência achou que seriamos capazes de lidar com a situação.

Se estás chocado a ler essa última frase, imagina como eu me senti...

Como podem imaginar foi um dia de loucos, ainda com algumas emergências, o que implicou que eu (uma interna de formação geral) estivesse sozinha nos laranjas. Não tinha com quem discutir os doentes. Mas os doentes não poderiam esperar. Apesar de ter muito pouca experiência, tive de usar o meu raciocínio clínico da melhor forma enquanto estava em carregue de ver TODAS as entradas dos laranjas. E aproveito para relembrar que os IACs/IFGs não têm autorização para prescrever qualquer tipo de medicação... 

Quando dei por mim já eram 15h e ainda não tinha almoçado. Só tive tempo para comer uma sandes e ir à casa-de-banho pela primeira vez em 7 horas... Quando voltei do "almoço", foi mais do mesmo. Correr de um lado para o outro e a tentar o meu melhor. Ver doente após doente, mas sem tempo para observá-los com gostaria.

As horas passaram mas pareceram minutos. Já tinha passado da hora de passagem de turno para os colegas da noite e assim o meu turno de 12 horas tornou-se num de 14 horas.

Este fenómeno de fazer horas extraordinárias é muito comum e acontece praticamente em todos os turnos de urgência. E querem saber qual é a postura da administração hospitalar em relação a horas extraordinárias para IACs/IFGs? Passo a citar o que nos foi dito no primeiro dia, durante a reunião de "acolhimento":

"Vocês não são pagos horas extraordinárias porque não rendem"

É o que ressoa na minha cabeça quando me lembro das vezes em que eu estive sozinha nos laranjas ou quando estive sozinha nos amarelos a orientar o caos: "Não rendo".

E ainda ficam chocados quando ficam mais de 400 vagas por preencher...

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