
À medida que o final do ano se aproxima, chegamos cada vez mais perto de uma data muito importante na vida de um/a jovem médico/a: a escolha da especialidade.
Os dias que antecedem a escolha são tortura. Dependendo da tua nota na Prova Nacional de Acesso (PNA), podes ter que esperar dias até poderes fazer a tua escolha. E muitas vezes a diferença de um dia, uma tarde ou umas horas é o que determina o teu futuro. Quando estamos no meio disto tudo, a olhar para os nossos colegas a escolher, é difícil não ficar nervoso, stressado e até aterrorizados. Na minha experiência, os colegas com quem me rodeava, e até os professores, tinham uma mentalidade de "tudo ou nada" - se não for esta especialidade neste sítio, vou repetir a PNA. E se te identificas com esta situação e mentalidade tenho uma coisa para te dizer - é tudo mentira.
Claro que todos nós idealizamos uma especialidade num certo sítio e temos um timing específico na nossa cabeça - "daqui a X anos vou acabar a especialidade e vou exercer aqui, e depois disso vou ser feliz" - mas é tudo relativo. A vida pode mudar de um dia para o outro, e aquilo que prioritizamos hoje pode não ser o mesmo daqui a um ano.
É por isso que uma das sugestões mais importantes que te posso dar é para fazeres uma lista (física ou mental) daquilo que prioritizas. Tenta imaginar a tua vida, o teu dia-a-dia, daqui a 1 ano quando estás a começar o internato. Depois faz o mesmo para o meio do internato. E, claro, por fim, o teu dia-a-dia quando já és especialista. Imagina, não só, o teu dia-a-dia no trabalho mas também fora do trabalho. Dou aqui uns exemplos de perguntas que deves ter em mente durante este processo de escolha:
- Como envisionas o teu dia-a-dia no trabalho como interno? E como especialista?
- Como envisionas a tua vida fora do trabalho como interno? E como especialista?
- Quais são os teus objetivos a nível profissional? E a nível pessoal?
- Gostas do ambiente de urgência?
- Gostas de fazer noites? Ou turnos de 24 horas?
- Gostas do ambiente de consulta?
- Gostas do ambiente no bloco?
- A interação/relação com o doente/utente é importante para ti?
- Como é o ambiente profissional no sítio que pretendes escolher?
- Quais são os teus objetivos a nível pessoal?
- Onde é que te imaginas daqui a 5 anos? 10 anos?
- Quais são as tuas prioridades?
- A qualidade de vida é importante para ti?
Estas perguntas são gerais e inicialmente podem ser dificeis de responder, especialmente para nós que só temos alguns meses de experiência como internos de formação geral. É por isso que é importante falares com outros internos e até especialistas na área que te interessa. Ter informação e sabermos como foi a experiência dos outros é uma grande ajuda. Mas não nos podemos esquecer que cada pessoa é uma pessoa, e a experiência de uma pessoa pode não ser a nossa - tanto para o bem como para o mal.
Com tudo isto dito, e se ainda estiveres a ler isto, podes estar a pensar - mas o título deste post é "Porque é que escolhi MGF?". E tens toda a razão. Mas achei importante explicar o meu raciocínio antes de falar sobre a minha experiência. Espero que o meu caso te ajude no processo da escolha, mas não significa que vai ser igual.
Então aqui vamos nós - porque é que escolhi MGF.
Quando comecei a faculdade, estava convencida que ia escolher cirurgia geral. Na altura não queria admitir, mas não posso negar que anos a ver Grey's Anatomy não me tinha influenciado. Mas tudo mudou depois da primeira cadeira de anatomia - cirurgia geral? NEM PENSAR. E se tivesse alguma dúvida depois dos primeiros anos da faculdade, foi tudo esclarecido durante o estágio de cirurgia no 6º ano quando um interno de cirurgia geral do 3º ano me disse: "se aprenderes alguma coisa durante este estágio, é para não escolheres cirurgia geral".
Durante o meu percurso houve sempre algumas especialidades que me interessaram, nomeadamente: medicina geral e familiar (MGF), obstetricia/ginecologia e pediatria. Fiz estágios em cada uma dessas áreas durante a faculdade e tentei absorver o máximo de informação que pude para poder ter uma ideia realista de cada especialidade.
No entanto, o que mais ajudou foi o tempo que passei em cada uma das especialidades durante o Ano Comum. Aí sim, pude ver com os meus próprios olhos a dinâmica de cada especialidade, as relações interpessoais entre colegas, a carga de trabalho, o stress, a experiência dos internos da especialidade, etc.
E se te puder dar outra dica é esta: tenta passar pelo Ano Comum com uma mente aberta. Digo isto porque no início do meu ano comum já estava convencida que ia escolher MGF. Portanto quando comecei o ano no estágio de cirurgia geral pensei: "espero bem que estes 2 meses passem depressa porque nunca vou considerar cirurgia geral". Mas depois desses 2 meses, a minha opinião mudou completamente. Adorei o meu estágio em cirurgia geral. Fiquei com uma equipa espetacular: os especialistas completamente interessados e preocupados com os doentes, os internos cheios de motivação e resiliência, um ambiente saudável e propício para aprender. Foi uma experiência tão boa que, no fim do estágio, os especialistas estavam a tentar convencer-me a escolher cirurgia geral. E não escolhi por pouco! Portanto, tenta ter a mente aberta para todas as possibilidades!
No final do Ano Comum, depois de ter passado por todas as especialidades, consegui ter uma ideia do que cada especialidade oferecia e como isso iria influenciar a minha escolha. Tentei analisar e comparar aquilo que experienciei com aquilo que são as minhas prioridades na vida profissional e pessoal. No meu caso, este foi o meu raciocínio:
- Tendo em conta as especialidades quais tenho interesse (MGF, obstetrícia/ginecologia e pediatria) existe uma especialidade que consegue englobar todas: MGF
- No mesmo dia podes ter um consulta de Saúde Infantil e Juvenil, uma consulta de Planeamento Familiar com a colocação de implante ou DIU e uma consulta de Saúde Materna
- Visto este novo interesse em cirurgia, também é um componente que gostaria de manter
- Existem Centros de Saúde que têm consultas de Pequena Cirurgia que envolve a remoção de sinais e outros pequenos procedimentos cirúrgicos
- Gosto do ambiente de consulta e poder estabelecer uma relação com os meus utentes
- Não sou fã do ambiente de urgência ou turnos de 24 horas
- Gosto da variedade de patologias que estão englobadas na especialidade de MGF
- Gosto da ideia de ter horários fixos e flexíveis
- Poder ter tempo fora do trabalho e ter uma vida pessoal é muito importante para mim
- Quero ter tempo para passar com a minha família, ter relações saudáveis e poder criar uma família. A vida não é só medicina. No final do dia, é o nosso trabalho.
Há quem pergunte se a especialidade de MGF tem mais qualidade de vida em comparação com as outras especialidades. E a verdade é que a resposta depende daquilo que a pessoa prioritiza. Mas vou ser franca, tendo em conta aquilo que são as minhas prioridades, eu acho que MGF é uma das especialidades com mais qualidade de vida. Consegues ter um bom equilíbrio entre a realização profissional e pessoal.
Espero que este post tenha ajudado! Se houver alguma pergunta ou dúvida, deixa nos comentários!
Boa sorte para a escolha!
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